esquizoativo

o hipocalipse das máquinas desejantes, o golem antiartístico, o ócio e a fofoca por mateus potumati

parceria classe a no rap paulistano novembro 29, 2007

a parada é mais ou menos assim: no ano passado, o camaras (aka andré maleronka, aka exu transão) veio me falar todo empolgado de uns discos de umbanda que ele estava comprando. me mostrou uns sons com pontos cabulosos e disse que era louco pra fazer umas bases em cima daquilo. uns meses depois, ele me disse que tinha mostrado esses discos pro alexandre basa (produtor do turbo trio e do black alien, entre outros), e que o basa não só ia fazer as bases (basa, base… ih, ALITEROU), como tinha proposto uma parceria. nascia ali o embrião de do outro lado da ponte, disco que agora eles estão finalizando.

o nome já fala tudo: as pontes sobre os rios pinheiros e tietê são símbolos notórios da divisão entre ricos e pobres, entre a cultura hegemônica e a cultura marginal, entre a são paulo cosmopolita, que bomba em londres e é capa da vanity fair, e a são paulo brasileira, que lota os bailões em interlagos e era o combustível do saudoso notícias populares. não é segredo pra ninguém que a interação real entre esses dois mundos é cada vez mais rara no brasil. daí que os dois resolveram criar sua própria ponte, partindo dos ritmos da umbanda, do hip hop da periferia de são paulo e de artistas como itamar assumpção, fenômenos historicamente relegados a um posto menor na cultura estabelecida.

recentemente, dois rappers responsa vieram fortalecer a parceria: thig, do relatos da invasão, e o xis, que a maioria conhece mais pelo hit “us mano, as mina”. a história de como eles entraram é bem legal, e o som que eles levam é a cara do projeto todo: base pra cima, malandra, coroada com o sample muito feliz de “fico louco”, do itamar.

bom, isso tudo foi pra dizer que finalmente a coisa vai ganhar o mundão: o vídeo abaixo acabou de entrar no youtube. misto de bootleg com premiere do som, tem os dois rappers contando como rolou a parceria, e, o principal, tem o som que eles gravaram. se liguem:

quem quiser saber mais, o blog do projeto tem um texto da hora do camaras dando o salve geral: http://vibelouca.wordpress.com/

também tem algumas surpresas vindo pela frente, e assim que eu puder eu jogo aqui.

por enquanto, parabéns ao camaras e ao basa, e vida longa à ponte que eles tão levantando!


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o código pirata novembro 27, 2007

Filed under: bulêfa,música — Mateus Potumati @ 7:31 am
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essa ilustração aí de cima (e o título do post) foram tirados de uma matéria do chicago reader sobre o fechamento do oink’s pink palace (ou só oink, para os íntimos), no final de outubro. durante seus três anos e meio de funcionamento, o oink foi algo entre um oásis e uma zona autônoma temporária para 180 mil fanáticos por música ao redor do mundo – dentre os quais, infelizmente, não me incluí. com um código de conduta rígido (para participar, entre outras coisas, era necessário ser convidado, ter um avatar decente, ajudar a produzir conteúdo para as resenhas internas e passar por “revistas” regulares, sem mencionar ter uma discoteca apresentável no hd), a rede de torrents acabou se tornando não só um dos maiores catálogos gratuitos de música na internet, mas um ambiente de criação, discussão e informação de amplitude e refinamento provavelmente nunca vistos.

a indústria musical e a polícia, porém, não viram toda essa beleza e idealismo na coisa e, finalmente, conseguiram fechar o site, colocando seu fundador na cadeia. em sua resenha no reader, miles raymer (que também escreve o crickets) defende basicamente que, em vez de caçar membros de redes de compartilhamento como se fossem talebans curtidos em crack (a metáfora é minha), a indústria musical devia aprender com eles. demorou, né. apesar de irrelevante em termos de circulação se comparado ao itunes, principal fonte de venda de música digital, o oink (e outras redes que existem e as tantas que inevitavelmente aparecerão no lugar) era infinitamente superior em qualidades essenciais à circulação de conteúdo no mundo de hoje. sites como o itunes ou a amazon falham feio por não terem sacado que o senso de comunidade e de interação pessoal sem fins monetários, base do oink, é o que cola na internet hoje. fora o problema da abrangência: imagine o trabalho que seria conseguir, por exemplo, um disco de rock psicodélico cambojano fora de catálogo pelas vias “legais”.

mas qualquer esperança de iniciativas produtivas por parte da indústria musical ou da lei é sempre pífia. e nesse caso a culpa não é só da indústria: estamos vivendo uma época de proibicionismo, proto-fascismo e alienação surpreendentes. aqui nos eua, a hillary clinton se mostrou partidária a uma política mais dura contra os imigrantes ilegais, com muro e tudo. isso que ela é democrata – já os republicanos vieram com a idéia de que a imigração cace e mande embora pelo menos 500 mil ilegais, para “servir de exemplo”. são cada vez mais comuns aqui em chicago relatos de alunos sendo punidos, e até expulsos, pelo simples ato de abraçar um colega na escola. no brasil, o sucesso do capitão nascimento e do filme tropa de elite escancarou até aonde chega uma sociedade onde o estado, incompetente em gerir as necessidades básicas dos seres humanos, se resumiu ao poder de polícia (vou falar sobre esse filme em um post-pesquisa aqui em breve). na música, isso resulta nessa perseguição atroz da RIAA (o lobby das grandes gravadoras de discos) e em declarações pífias como a do gene simmons, do kiss, que defendeu esses dias a prisão de cada moleque que baixa música ilegalmente no mundo. (nessas horas, eu só penso em como os portais de notícias ainda não acordaram para o fato de que várias pessoas copiam e colam textos de propriedade deles, em fóruns de discussão, orkut, blogs etc. imagina quantos milhões eles estão perdendo com cada ctrl c + ctrl v que o povo dá por aí. ih, melhor nem dar idéia.) enfim, na real eu cago e ando pro que esses caras da RIAA pensam, e é mesmo uma questão de tempo até que esse modelo de negócios da indústria musical do século XX seque de vez. mas eu me preocupo e me pergunto aonde essa caretice atual do mundo vai chegar.

 este assunto ainda não acabou. esta semana eu vou postar uma entrevista que fiz com o steve albini, e aí a gente dá seguimento.

 

u cão foi quem butô novembro 23, 2007

outro dia, outra exposição. assunto repetido, mas por uma boa causa: o museu de arte contemporânea de chicago criou essa mostra explorando a relação entre arte e rock, escolhendo como ponto de partida o envolvimendo de andy warhol com o velvet underground, na segunda metade da década de 1960. pra completar, de terça feira a exposição é de graça, o que sempre deixa tudo mais legal.

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caía uma garoa fina, fazia frio e as nuvens cobriam o topo dos prédios mais altos. pra muita gente, isso costuma ser motivo pra ficar em casa. eu acho ducaralho andar quando faz frio – ok, ainda não é O FRIO, mas já é frio o bastante. e andar em chicago no outono é especialmente ducaralho para um nerd de quadrinhos: a névoa revela o lado gotham city da cidade, que fez a cabeça dos produtores de batman begins. como até cogitaram matar o morcegão recentemente, um rolê desses chega a ser quase um tributo. pena que não consegui fazer uma foto decente, a melhor foi esta:

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bom, à mostra. os curadores acharam um gancho legal: partiram da idéia de que arte contemporânea e rock nasceram antagônicos, e que o encontro entre os dois foi algo como arriscar um pacto com o tinhoso (daí o nome, “simpathy for the devil”). a arte colocaria em jogo sua seriedade; o rock, seu caráter subversivo e sua aura descompromissada. felizmente, ambos ganharam o duelo na encruzilhada e, juntos, produziram algumas das obras mais importantes do século XX.

como já esperávamos, era proibido fotografar. mas cara-de-pau e benevolência de alguns guardas sempre fazem milagres. esta de baixo é de uma série de entrevistas chamada “synesthesia: interviews on rock and art”, feita por tony oursler (da banda californiana poetics) com gente como david byrne, john cale, arto lindsay, thurston moore e kim gordon, entre outros. infelizmente chegamos muito tarde pra poder sentar e ouvir as entrevistas, e pelo que eu vi não é fácil conseguir esses vídeos, que parecem bem da hora. se alguém tiver sucesso, me avise.

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as obras ficam todas no segundo piso, em duas alas. a maior parte da exposição é dedicada aos EUA, com destaque à costa oeste e à contracultura, a detroit e a nova york. há também uma boa seção sobre o rock britânico e sobre os alemães. infelizmente, o recorte pára por aí. a participação do brasil se resume a uma referência textual ao tropicalismo (gilberto gil e os mutantes). japão, austrália, itália e tailândia são apenas citados. pena.

os destaques pra mim foram os seguintes:

– raymond pettibon, artista que entre outras coisas batizou o black flag e produziu capas para bandas como minutemen e sonic youth. tirei só esta foto de relance, porque nessa hora eles resolveram brincar de bad cop:

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– pedro bell, várias capas para o funkadelic:

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– jason rhoades, morto em 2006 e aclamado por suas instalações com neon e termos chulos. a mostra trouxe “velvet underground perfect world”, da qual eu consegui fazer duas fotos, mas que não ficaram nem perto da real shit. poucas coisas são tão emblemáticas sobre A AMÉRICA como neon, palavrão e velvet underground.

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(daí pra frente a reprê colou forte e não deu mais pra tirar foto.)

– painéis imensos originais do coletivo “anti-rock” de detroit destroy all monsters. mistura de arte performática, proto-punk, free jazz e estética de filmes de terror, o DAM foi fundado por mike kelley e endossado, entre outros, por ron asheton, dos stooges e mike davis, do mc5. apesar de nunca ter gravado um disco, o grupo foi emblemático na música de detroit, ligando os pontos entre sun ra e mc5, funkadelic e os stooges.

– parte da instalação original de exploding plastic inevitable, símbolo do envolvimento de andy warhol com o velvet underground.

futurama, ensaio fotográfico de kevin cummings sobore ian curtis, do joy division.

– rascunhos originais de peter saville para a lendária capa de power, corruption and lies, disco que alavancou a carreira do new order.

– cartazes, artes de discos e instalações de grupos alemães como einsturzende neubauten, neu! e can.

o programa da mostra também é criativo: uma playlist com 46 músicas relacionadas ao tema, acompanhadas de uma pequena descrição. seleção fina, que vai de beatles e rolling stones a red krayola e captain beefheart. a relação está disponível no site do museu. quem quiser ainda pode levar pra casa um catálogo classudo em capa dura, com todas as obras da mostra e textos explicativos, por US$ 50,00.

depois do sucesso do bob gruen na faap em 2007, bem que alguém no brasil podia se animar e levar essa mostra praí. daria pra colocar uma bela seção sobre arte e música no brasil, desde o tropicalismo até a street art de hoje, junto com o rap e tudo mais. valeria a pena.

 

tobin sprout novembro 18, 2007

Filed under: exhibitions,exposições,música,reviews — Mateus Potumati @ 7:06 am
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flyer da exposição de mr. sprout

ontem nós fomos ver a exposição dos quadros dele numa galeriazinha no centro de chicago. pra quem não sabe, ou não lembra, tobin sprout foi guitarrista e vocalista do guided by voices, um dos maiores nomes na história do indie rock. sempre discreto, sprout acabou deixando a maior parte da fama para o robert pollard, líder e principal compositor do GBV, mas sua participação na banda foi essencial, seja como compositor ou como engenheiro de som. sem seu famoso gravador de 4 canais, hordas de fanáticos por lo-fi teriam hoje um grande vazio em sua coleção. fora o GBV, ele também montou o airport 5 (com pollard) e lançou belos discos solo.

paralelamente à carreira musical, sprout construiu uma respeitada reputação como designer e artista plástico, que é o seu ganha-pão hoje em dia. a exposição teve um bom público, e pelo que vi só eu e a jana conhecíamos o tobin sprout músico (quando falei para uma das diretoras da galeria que ele teve uma banda de rock, ela ficou ligeiramente envergonhada por ignorar o fato). os quadros dele são bem legais, algo entre mark ryden e ralph bakshi com rotoshop, e caros (pelo menos para os meus padrões: os mais baratos saem por US$ 500, mas a média ficava nos US$ 3.000, alguns passando de US$ 7.000).

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para nossa surpresa, ele estava por lá, e é claro que a gente alugou o tiozinho. não deu pra conversar muito tempo, porque não tem nada mais mala do que monopolizar artista nessas ocasiões, mas nos nossos 10 minutos de papo fiquei sabendo que, antes de seus quadros engrenarem, ele trabalhou como carpinteiro, e que “talvez” o airport 5 faça shows em 2008. cara gente boa, muito simples, jeans e all star devidamente surrados, longe de qualquer estereótipo de artista. para dois londrinenses, ainda, é impossível falar de GBV e não lembrar de grenade. aí, claro, mencionamos a banda “de uns amigos nossos, grandemente influenciada por eles”. ele ficou interessado com a descrição e perguntou se “eles não vão tocar na região”. aí, rodrigo guedes, demorou pra armar uma turnezinha aqui pelo midwest.

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com o show do robert pollard no final do mês, novembro já é o mês do revival guided by voices.

 

tô no mundão novembro 14, 2007

Filed under: Uncategorized — Mateus Potumati @ 8:28 pm

é isso aê, rapeize. depois de enrolar por 7 anos, finalmente resolvi começar um troço destes. não que o mundo esteja precisando de mais blogs, nem que eu tenha descoberto algo que vá revolucionar a vida das pessoas. mas vira e mexe aparece alguma coisa que me faz pensar “talvez alguém goste disso”, ou “acho que o fulano vai cagar de rir disso”, ou “alguém pode se animar a fazer algo por/contra isso”. também tem umas matérias que publico aqui e ali no mundo do papel, mas que nem sempre os amigos conseguem acompanhar, e, sacumé, como vou poder contar vantagem, polemizar, tirar sarro ou arrumar confusão se nem todo mundo leu?

então é isso aí, agora vão ter que me engolir. vamos ver no que vai dar.